Picasso Chegou cedo. Foi melhor mesmo vir direto, apenas tendo antes o cuidado de guardar as sapatilhas na mochila de tricô. Os tênis esportivos não combinavam com a longa saia indiana, mas eram confortavelmente o seu número e foi só o que a Liliz pôde lhe arranjar àquela hora, na saída da academia.
Agora, com o top de malha negro, saia e mochila pastéis e os tênis fluorescentemente alaranjados, ela procurava uma mesa próxima ao palco precário daquele nostálgico barzinho da moda (Pub? E aqui é a Inglaterra? Ele podia ter chamado de boteco até! Mas pub? Não era à toa que terminaram, jamais se entenderiam). Estava ansiosa para a primeira apresentação da Beatriz, do Léo, da Maria e da Terezinha; acompanhou todos os ensaios e sentia que se não estivesse lá, junto a eles, algo poderia, aliás, fatalmente daria errado. Não era nem uma superstição, só a sensação de fazer parte da banda que viu crescer no jardim de sua casa e da qual não poderia se afastar de jeito nenhum naquela estréia. Mesmo a estréia sendo ali.
Pediu água com gelo e limão, sem gás. Acendeu um cigarro.
As luzes baixaram.
Alguns bandolins.
Respiração. Voz. Freqüência.
Ao menos a fumaça era livre para dançar pelo salão, mas o pensamento também voa.
Os bandolins. Respiração, diafragma... Vozes. Ressonância.
Com a água, um pedaço de papel cheio de números engasgados sobre a bandeja prateada do garçom.
Sorriu, fez sinal para que se apressasse então, a música logo estaria no fim. Recebeu outro sinal que não decodificou, ainda muitas sombras e cada vez mais pessoas chegando. Ele ficou junto ao caixa. Também acendeu um cigarro, tomou uma vodka com gelo. "... se julgando amada ao som dos bandolins..."
Olhares. Pra todos os lados.
Alguns cruzamentos.
Fez novo sinal, agora chamou a atenção dele... Mas era com o garçom; devolveu-lhe o papel e pediu vodka. Sem gelo.
Ele estranhou receber o papel de volta, mas também tinha se julgado precipitado ao mandá-lo já tão cedo quando a viu com aqueles tênis alaranjados sem meias, recostada a cadeira. Sabia, tinha sido inconveniente... talvez propositamente inconveniente... Nada indicava quanto tempo ela ainda ficaria, de quais bebidas ou outras ilusões se serviria, nem seu humor, nem seu amor...
Resignou-se a contar tostões, enumerar possibilidades, ganhos e perdas, prejuízos, lucros, juros, juras, mentira, traição, não! 1 + 1 = 2... 2 – 1 = 1... 1 = 1... Qual o troco?
Não, não eram os outros copos que pegou a mais na bandeja do garçom. Só tinha tomado inteiro o de água quando descalçou os pés; com a ponta do esquerdo pressionou através do tornozelo, até escorregar-lhe o tênis... Com o dedão livre, brincava pelo chão. Daí mal se percebeu como, mas já em transe, no centro do salão, num leve movimento de braços, colo e quadril, lá estava entre os rodopios que ninguém entendeu. E nem respirou. Fumaça neblina madrugada em roda iluminada pelo botequim.
Derrubou, sem querer, o copo vazio no chão. Um coração de vidro. Mas como coincidia com o acorde final, ficou até bonito aquele espatifar-se de realidade, tanto que recebera palmas junto com a banda. Pés e face vermelhos...A próxima música foi em sua homenagem.
“Eu não sei dançar
Tão devagar p'rá te acompanhar...”
Um paradoxo.
Ele entendeu. E com o peito ainda tremendo, mandou o garçom avisá-la que a conta era cortesia da casa; pela dança . Sem números engasgados, voltou ao caixa e sorriu para todos os clientes aquela noite.
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