Segunda-feira, Abril 03, 2006

"8 de maio apareceu na minha mente"

...∞...∞...∞...∞...


Acho que... Não, eu não acho.


Tenho plena certeza de que a primeira coisa que amei em você foi seu filho não-nascido, oito anos atrás. O pai que (antes de você?) eu soube, sem saber, que (nunca previ quando) certamente você se tornaria. Ainda não faz oito anos, mas maio está tão próximo!

Embora eu tenha me sentido muito injustiçada no ano passado quando, ao fim do filme, não me encontrei em Clarissa Vaughn, negando a predição de meus dois grandes amigos, creio agora que algumas visões são mais aguçadas quando calam a razão.

Ainda não gosto de Clarissa como de Laura ou Virgínia. Estas as que nunca fui, a não ser por dentro. Não são nossas ações no mundo o que realmente conta? O que hoje julgo saber de você possui forma, tamanho, significante. E a lembrança mais antiga que guardei da sua imagem não tem data, mas imagem que é, está escura pela noite mal iluminada em que um moleque de dezesseis anos movimenta-se em frente ao portão da minha casa, apresentado a mim por nosso então amigo comum.

Não é o que eu não teria feito (fosse aquela esta de hoje), é o que eu ainda não teria feito, sendo esta. Fica faltando um "happy end" (dizem que se não for happy, não é o end), uma moral da história, um aprendizado, o porquê da trajetória feita pelo herói de um romance de formação, uma descoberta, um epílogo, uma crítica bem amarrada, uma frase de efeito, uma conclusão, uma síntese, um ponto. A data que ficou gravada em milhares de conexões nervosas só voltou por ser automática, por fazer parte da história. No dia, era noite, em que você foi gentil e brincalhão com uma pirralha de oito anos como a Francine, eu descobri o irmão mais velho que (eu ainda não sabia) você já era, o pai que (sempre soube) você teria de ser. Era maio, eu tinha apenas dois irmãos menores (a Fran e o Rô), talvez não conhecesse seus pais ou os conhecera naquela noite, nosso amigo comum ainda não havia me dado a primeira das rosas que jamais guardei... Por que resgato pontos para criar uma linha que já se faz no meu somente caminhar? É que teimo em ignorar a luz da manhã que escorre sem permissão pela janela do meu quarto ou entre as nuvens, já que não encontro corpos físicos para os fantasmas novos de cada madrugada.

Mas um álbum de fotografias não é um corpo real? Ainda que virtual? É o corpo que aprisiona parte da alma (luz?), jogando-a para além de si mesma em uma estrada além da estrada, até que a última memória (neste mundo, multiplicada por gigas incompreensíveis) finalmente morra com o nome, depois de passados muitos homens, muitas épocas. Se é assim, como impedir que oito anos signifiquem? Se faz tão pouco... Ou que uma predição seja verdadeira? (toda predição é uma fotografia do presente jogada adiante, photoshopeada para parecer outra, quando não é).

O que tememos na predição não é o futuro, posto que este nunca virá, por definição. Tememos o retrato. A revelação. O reconhecimento. O agora.

Eu gosto menos de Clarissa quanto mais a entendo, e é por isso que não espero a sua amizade hoje nem seu amor ontem, com ou sem minha previsão. Para que eu aceitasse Clarissa, seria preciso não conhecê-la. Se lhe dei hoje aquele vaticínio ao contrário, não é para que o aceite, mas para me vangloriar da fotografia que fiz. Eu bem sabia o pai que você é agora e isso me trouxe êxtases, como a única prova de uma verdade morta, última memória de homens extintos, a certeza de que amei, pelo menos, uma realidade possível neste mundo.



Nota surreal anexada ao contexto: Viktor (seu filho), Vítor (filho daquele nosso amigo comum) e João Victor (meu outro irmão menor, hoje com 5 anos, cujo nome fui eu que escolhi).


...∞...∞...∞...∞...

0 comentários: