De acordo com a postagem anterior, agora eu deveria estar escrevendo sobre o porquê de eu achar que não dá pra ser a professora que eu gostaria se eu não tiver a minha própria escola.
Era sobre isso que eu deveria escrever, mas não é disso que falarei agora, pois nem sei mais o que poderia falar desse tema... parece tão óbvio (e não é). Não falarei disso, acabou.
Também não vou falar do tempo que mudou (nem mesmo das chuvas vespertinas que param São Paulo de uma hora para outra e que, finalmente, entraram de verdade na minha vida para me mostrar que hoje sou sim uma paulistana... e enfrento essa "dor e delícia"). Mas não é desse tempo que falo, não vou usar a expressão de mãe: "xiii, o tempo mudou" , que serve tão bem para quando a gente vê essas nuvens carregadas que aparecem de repente e mudam tudo que tá por perto. A pista de carros vira rio, o rio (antes morto) parece até que se movimenta em direção a algum mar, os carros e ônibus tornam-se submarinos com rodas.... E nós, paulistanos (não só os de nascença, mas todos pelo batismo da chuva), perdidos na saída do trabalho, só queremos estar em casa... pra agüentar o dia seguinte de trabalho...
Não vou falar os mesmos lugares-comuns da cidade que nunca pára (a não ser pela chuva) e dos seus habitantes que só trabalham e trabalham, sempre procurando um tempo que não têm, desejando mais horas nas já cansativas 24 que enfrentam pra poder fazer de conta que o tempo não é o senhor de suas vidas.
Não vou falar do tempo. Tempo que passa. Muito mais rápido desde que passei dos 18. Não preciso ter trinta ou quarenta pra ter saudade dos meus vinte anos... Com vinte e cinco já me parece que estou muito mais longe de fazer e dar conta de tudo o que eu precisaria com esta idade, já me sinto perdendo tempo, já sinto que não fiz o suficiente e nem o mínimo e nem nada do que aos 12, prematuramente madura, eu já achava primordial.
Um carro? Uma casa? Filhos? Família construída? Dinheiro e sucesso no trabalho? Estudos concluídos?
Nada disso....
A Solange de 12 anos só queria ter certeza de quem ela era e do que sabia fazer de melhor pra si e pelos outros que amava. A Solange de 12 anos gostava de ler porque estava aprendendo a novidade e a beleza da construção do que a gente pensa, das palavras que podem ser maniPuladas (e manicorridas e maniparadas... e as pedipuladas também, que são as melhores). Palavras que podem inventar sentidos os mais incríveis e os mais loucos e fabulosos, e tão diferentes e inimagináveis e divertidos e absurdos e os mais gostosos de pensar e de sentir e de saber....
A maturidade da Solange de 12 anos estava em saber o que sabia, em gostar de saber e em querer saber mais... Em sonhar o que podia naquele tempo e em esperar o que viria só mais tarde... Aí sim, formar-se, trabalhar, relacionar-se adultamente com o mundo...
O que a Solange de 12 anos achava que perderia é aquilo com que a Sol , com seus 25, ainda não sabe como lidar... Essa estranha falta de tato com as pessoas que dividem o mundo comigo, esse meu acanhamento, minha extrema introversão.... Esse jeito de ficar no meu mundo... De mais ouvir do que falar e, de quando falar, morrer de medo de estar falando besteira...
Nisso continuo igual.
Mas, naquele tempo, eu achava que mudaria... Por alguns momentos até acreditei que mudei... E, na verdade, me redescubro a cada dia. Sempre tendo que entender o meu estar no mundo outra vez...
Minha antiga maturidade prematura virou medo do futuro... Provavelmente porque não me vi florescendo direito e agora corro atrás do que não esperava e do que preciso para sobreviver, mas não me sinto preparada pra ter (e fazer e acontecer).
Apesar de tudo...
(olha como a vida é engraçada)
...sou feliz como nunca pensei que poderia!
É que, um montão de vezes, prever errado o futuro pode funcionar muito mais do que qualquer outra coisa...
Porque a vida dá baile na gente... Ainda bem!
Ainda beeeeeeeem....
Sábado, Janeiro 19, 2008
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12 comentários:
Meu Deus... Que texto bom de ler... Que saudade de ler a Solzinha nesse mundo... As previsões sempre são apenas previsões, querer ver o que ainda não dá para se ver. Por isso a gente erra, a gente acerta, a gente sonha errado, a gente sonha certo. A gente quer um mundo de coisas aos doze anos. Aos vinte e quatro olho para os lados e vejo que muito do que queria ainda não chegou, ainda não fiz. Mas que muitas coisas eu esqueci de querer e, no entanto, estão aqui. Aos dozes anos é difícil entender o que será aos vinte e quatro. Aos vinte e quatro é difícil entender a cabeça dos doze anos. Fica uma saudade boa e aquela menina que mora dentro e que vem às vezes nos visitar. Menina que deixa tudo leve, que se parece com a gente, mas que é tão diferente. Que é tão parecida, mas tão outra... rsrs... Beijos... Te amo no mundo. Cá.
Lembra desse texto do meu blog (que tá fora do ar)??? Chama-se ENCONTRO... Lembra um pouco o seu...
Voltando. Após longos meses de ausência. Descobri que não fui feita para ter um blog. Talvez se eu tivesse os meus treze anos (aquela idade em que eu parava tudo para escrever os meus sentimentos em longas folhas de papel, uma idade em que nada era mais importante pra mim do que relatar o que eu sentia, o que eu vivia), mas agora, com esse turbilhão de pensamentos e descobertas, com essas coisas para serem feitas, planos, sonhos, viagens, amores, esses sentimentos que não encontram mais parada e vão indo, indo, indo... Agora parece que não existem mais palavras capazes de me relatar. No entanto hoje, precisamente hoje, sofro de uma solidão aguda, sem som, nem dor. Uma solidão que vai se deitando sobre mim, que vai invadindo os meus compromissos, a minha incapacidade de organização, uma solidão macia que invade a minha saudade e a minha noite de sexta-feira. Agora eu talvez possa escrever algo, sobre mim, sobre o mundo, sobre o tempo, sobre esse meu cansaço, sobre crianças e flores, talvez sobre o mar e sobre desejos, talvez sobre livros, ou sobre a minha avó. Talvez sobre tudo isso junto.
Acontece que agora eu PRECISO escrever. Sei bem que quando preciso escrever e não o faço, mato em mim coisas importantes, coisas sobre o que sou, sobre o mais profundo de mim mesma. De tudo que li hoje - e foi pouco - duas coisas me fizeram pensar. Uma li no blog de uma amiga - na verdade não é bem uma amiga no sentido que as pessoas dão à palavra, mas é uma amiga no sentido que a palavra me toca, pois é uma pessoa linda, que eu conheço pouco, mas que me emociona e pra quem eu desejo toda a felicidade, e poesia, e amor do mundo - uma reflexão importante sobre o tempo, se é que posso classificá-la assim. No texto, minha amiga se questionava sobre como a menina que ela foi um dia olharia para a pessoa - com seus vinte e poucos anos - que ela é hoje. Ela imaginou uma grande decepção e algumas pequenas surpresas. Então passei a pensar no meu encontro, isto é, pensei no que ocorreria se a menina que eu fui aos oito ou nove anos pudesse encontrar essa moça, ou mulher, ou menina mesmo, que eu sou hoje, com meus vinte e tantos anos. Será que a decepção seria muito grande? Acontece que eu estou exatamente na idade que planejava ter filhos - por ser a idade em que a minha mãe teve filhos - e eu teria que explicar para ela - eu pequenininha - que hoje em dia é difícil, que o mundo andou mudando muito e que ela não sabe porque além de novinha, vive - ou viveu - há alguns anos atrás. Eu teria que lhe explicar muitas coisas sobre o amor, sobre a vida e a morte, sobre as dificuldades, sobre o medo, sobre o tempo, sobre literatura e pão, sobre sonhos e realidades. Acho que a decepção seria grande. Acho, realmente acho, que ela ficaria muito triste, que não iria me reconhecer, que iria erguer o dedinho para me dizer o quanto fui mesquinha e o quanto deixei de cumprir o que prometi. Com certeza ela teria muito mais a me explicar. Me diria, por exemplo, o silêncio. Me contaria da alegria de passar o dia todo lendo um livro desesperadamente, da aflição das últimas páginas, lidas frase a frase, com o coração disparado. Me falaria que apesar da dor de cabeça e da dor nos olhos, apesar da necessidade de ficar no escuro depois de um dia de leitura exagerada, tudo valia a pena. Acho que ela me falaria que para passar, era só escrever o medo, a rejeição, o desamor. Acho que ela me falaria da tristeza e da tristeza escrita que é bem menos triste do que a não escrita. Acho que ela cantaria baixinho as minhas músicas preferidas, e me falaria que quando o medo é muito grande é só pegar o violão e cantar.
Felicidade foi se embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora porque sei que a falsidade não vigora
Nesse momento, eu cruzo com o outro texto que andei lendo. Uma pequenina crônica da Clarice Lispector, que falava sobre o ser você mesmo. Não é tão simples quanto parece. Clarice conta que quando perde coisas importantes, como um documento, por exemplo, costuma pensar "Se eu fosse eu onde guardaria tal coisa?". A partir disso ela começa a discorrer sobre essa frase aparentemente sem lógica "Se eu fosse eu" e descobre que se ela fosse ela faria tanta coisa diferente. Então tá. É exatamente isso que ocorre comigo. Se eu realmente fosse eu faria tudo diferente. Sim, ler Clarice é melhor do que imaginamos. Sim, minha querida menininha que mora dentro de mim, a literatura tem bastante serventia na vida. Eu sei, você já sabia disso.
Acho que passei longos anos esquecendo sobre mim. Esquecendo de mim. Me desaprendendo. Desaprendi a escrever, desaprendi a cultivar meus amigos queridos, desaprendi a escrever longas cartas, desaprendi a tocar violão e acho que até desaprendi a amar. Desaprendi a estranhar as coisas -o que eu fazia como ninguém aos sete anos. O estranhamento é uma das coisas mais importantes do mundo. Quando não estranhamos -não questionamos, não viramos os acontecimentos de cabeça pra baixo pra ver qual é a sua cor, como eles se comportam, quantas perninhas têm - passamos a aceitar tudo. Deixamos de ser, de participar, de inventar a vida. Acho que há algum tempo não ando inventando nada. As coisas me parecem normais e aceitáveis, e então o medo e o desamor e o ciúme e as pequenezas andaram tomando conta de mim.
Acho que preciso me reaprender. Reaprender a minhas respiração, o meu sorriso. Reaprender a ser eu mesma independente de qualquer coisa ou pessoa. Reaprender a música e a alegria. Reaprender a chorar.
Foi um texto gostoso de escrever, Cá... Como há tempos não acontecia comigo!
Que bom saber q há mais pessoas q lembram de suas meninas (e meninos) interiores de 12 anos....
Fiqei super feliz com seu comentário, Cá!
Gde bjo!
Ass.: eu mesma!
Sim, Cá!
São textos e pessoas diferentes, mas é a mesmíssima sensação!
bjo, te amo no mundo!
Ass.: eu dnv!
Eu, aos doze anos, não sonhava atravessar o Atlântico.
Havia coisas muito mais irreais na minha mira.
E olha eu aqui, me cagando de medo do porvir...
Com doze anos eu sonhava em fazer um transgênico (na época não havia a palavra, mas eu imaginava em juntar dois DNA's diferentes) de cavalo e homem pra criar uma raça de centauros. Planejava até o tempo que ia ficar na cadeia por ter desafiado o Conselho de Bioética. Eu era uma criança muito perturbada.
Planos, planos... Eu achava que tê-los seria a solução pra falta de futuro... Quando descobri que as coisas não funcionam bem assim, coloquei os planos no bolso. Levo-os comigo pra me sentir seguro, mas sei que as coisas que virão não necessariamente estarão entre esses planos... As coisas foram acontecendo mesmo sem que eu me achasse pronto pra elas. Aí é que está a graça de tudo mesmo...
Com 12 anos, o Fabinho estava querendo saber como transformar aquele montão de informações históricas da cabeça se transformarem em algo útil, sem se tornar um Professor chato como a Profa. Marisa, do Sílvio Portugal.
Aos 26, descoberto o caminho da História, desvendo agora as delícias de ser e pensar no plural.
E como é mais delícia ainda, ser você a pessoa que me dá esse sorriso e esse sentimento que me toma, me alimenta, me alegra e me faz tão beeeeeem e tão beeeeesto!
Ainda beeeeem... Ainda beeeeeeem mesmo!
Solzinha... Saudade de vc e dos seus escritos. Saudade grande. Beijo. Cá
Sol,
desatento, não havia visitado seu blog. Agora tanto "tempo" depois, me permiti esse deleite. E vejo que você anda meio parada, assim como eu havia parado. Bem, depois de mais de um ano, voltei a escrever, e quero ler seus novos textos. S'imbora lançar letras no espaço digital!
Hey, dona Sol! Apareça!
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