Vez ou outra no meu trabalho eu acabo me deparando com alguns títulos curiosos de livros. Não por coincidência, os primeiros da lista são antologias. Talvez evidente demais, já que vivem estas da eterna listagem e classificação ordinária das nossas coisas. Seletas completas, coisificações2 (ao quadrado). Acho que um dia eu mesma lançarei uma “antologia de todas as coisas”, mas só pra ter o meu nome citado nalguma bibliografia (outra lista?) de algo qualquer, junto a cem outros autores falando de idênticos assuntos. No caso, sobre coisa nenhuma. Afinal, os absolutos são iguais, tanto nos positivos quanto nos negativos. Todas as coisas e coisa nenhuma. Absolutamente sim equivale, na mesma medida, a absolutamente não.
Bom, mas não é meu interesse fazer aqui algum tipo de análise, nem séria, nem bem humorada e muito menos filosófica sobre as tantas razões e desrazões das modas editoriais que levam a tal profusão de títulos cansativamente cacófonos como 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer, 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer...
Apenas venho me juntar a eles com estas mil vidas (mil e uma, sejamos exatos na cacofonia) que proponho com meu título. Mas não, Igor, meu amigo. Não é sobre seu amado teatro e todas as personificações vivenciados num palco para as quais tão poucos têm a chance de se entregar e fazer disso uma razão. Uma realidade tangível, coerente e sincera. Não são esses mais de mil vidas das quais você é capaz que proponho aqui. Nem as que o meu sonhador Guilherme pretende no cinema.
Na verdade, eu só queria mesmo dividir algumas sensações com meus amigos, conversar um pouco sobre nossas visões de mundo, nossos jeitos de estar por aqui... Nossa vontade de não querer apenas estar, ainda que o tempo ( esse grande deus malvado e irônico que tanto nos oprime... sem sequer precisar de nós)... enfim, ainda que o tempo não nos tenha permitido mais...
Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu?/A gente quer ter voz ativa/No nosso destino mandar/Mas eis que chega a roda viva/E carrega o destino prá lá...
Embora não muito animadora, esta música traduz bem um certo sentimento que tem caído sobre a minha cabeça.
Será que isto então é que é ser adulto? Esta desesperança, esta descrença? Não. Acho que isso é desvalorizar o tempo (tempo que além de deus malvado é também uma medida financeira) E quanto é o suficiente? Quanto valem nossos minutos de conversa, de idéias e sentimentos trocados?
Não sei, estou correndo para não pensar... Para tentar viver amanhã o que estou vendendo hoje com meu sono, meu mau humor, minhas palavras mais raras (ditas e escritas), meus sentimentos mais contidos (estrangulados, às vezes), minha pressa sempre estampada. Meus segundos contados para serem úteis...
É preciso viver não só a minha, não só a que eu conheço, não só a que já vivi, mas incontáveis outras vidas de mundos e entendimentos e lugares e descobertas que ainda não busquei me propor... Mas quando?
Aí é que está a questão do título. A resposta seria: antes de morrer... Mas e quanto de vida ainda gastarei aprendendo a viver, para só então viver no momento certo, quando simplesmente esse tal de morrer é uma surpresa com a qual não se conta?
É... Esta última resposta é mais difícil... Nem a pergunta tá ando pra entender direito, né? Eita texto confuso... Sei apenas que eu ainda não tenho nenhuma resposta sincera, meus amigos... Porém, se quiserem um fim positivo da mais bela auto-ajuda para este texto, então vá lá: Carpe diem!
Links:
http://letras.terra.com.br/chico-buarque/85944/
http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45167/
A quem interessar possa:
1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer.
ROBERT DIMERY
1001 Filmes para Ver Antes de Morrer - Importado
STEVEN JAY SCHNEIDER
1001 Livros Para Ler Antes de Morrer.
LISMA (ED.)
Em inglês:
1001 CLASSICAL MUSIC ALBUMS YOU MUST HEAR BEFORE YOU DIE (2008)
RYE, MATTHEW
UNIVERSE PUB II
1001 GARDENS YOU MUST SEE BEFORE YOU DIE (2007)
SPENCER-JONES, RAE
BARRON'S
1001 HISTORIC SITES YOU MUST SEE BEFORE YOU DIE (2008)
CAVENDISH, RICHARD / MATSUURA, KOICHIRO
BARRON'S
1001 MOVIES YOU MUST SEE BEFORE YOU DIE (2005)
SCHNEIDER, STEVEN JAY
BARRON'S
1001 PAINTINGS YOU MUST SEE BEFORE YOU DIE (2007)
FARTHING, STEPHEN
UNIVERSE PUB II
1001 ALBUMS YOU MUST HEAR BEFORE YOU DIE (em Ingles) (2006)
LYDON, MICHAEL / DIMERY, ROBERT
UNIVERSE PUB II
1001 BOOKS YOU MUST READ BEFORE YOU DIE (em Ingles) (2006)
BOXALL, PETER
UNIVERSE PUB II
10 comentários:
Mil vidas para uma pessoa.
Um vida para duas.
Um amor para duas pessoas.
Uma vida para um amor.
Um amor para mil vidas.
Delícia de texto, Solzinha. Adorei as mil e uma vidas para viver antes de morrer. A gente sonha tanto, mas o tempo, o dinheiro, o mundo, os anos, os planos, os estudos, a família... A gente sonha vidas diferentes, dá vontade de umas cinco, umas cinco diferentes, cada uma em cada canto, cada uma de um jeito. Antes de morrer, antes que tudo acabe, antes, antes. Quando nos damos conta, o mundo já correu, o tempo vai passando. Ser adulto é desistir dos sonhos? Ser adulto é... É isso?
Beijos em você. Queria mais textos seus por aqui.
Te amo grande
Camila
N�o sei... desconfio, depois de ler-te, que uso o teatro pra tentar acalmar a dor que sinto em n�o poder viver 1001 vidas num estado cotidiano. Ent�o levo tudo pro palco... Crio, recrio e renas�o a cada nova possibilidade de existir sendo algu�m que, na verdade, n�o sou...
O melhor (ou pior) � que gosto disso...
Nossa, como é bom se identificar mais uma vez com um desabafo seu! Eu vivo insistindo em muitos dos meus posts sobre essa nossa vida múltipla que a cada dia se multiplica mas o resultado é sempre uma subtração. Cansa, cansa, cansa muito. Por isso tenho tentado viver intensamente os mais insignificantes momentos.
PS: Ei, não pára de escrever, hein?
Sim, sim. Também estou no mesmo barco. Seríamos amigos em sintonia ou um mundo todo que compartilha o mesmo desespero de saber da roda gigante mas não conseguir saltar dela?
Às vezes me pergunto o que é que estou fazendo aqui...
Sol, vc é foda. Estava sentindo muita falta dos seus textos.
Nem preciso dizer que a identificação foi imediata.
Surpresa boa que essa entidade chamada Acaso me reserva...
(Há quem não acredite na existência do Acaso... Mas esse é um dos nomes que eu dou pra essas coisas que eu não sei definir...)
Copiando o caríssimo Gil: como é bom poder me identificar com um desses escritos teus...
Saudades, de fato, de ter um escrito teu que me desse vontade de relê-lo, me estimulasse a mente...
E me fizesse procurar respostas...
(Faz um tempo que eu não faço isso... Acho que me tornei "adulto" demasiado... E quem tem sofrido com isso é minha inspiração poética -- sem falar de todo o meu "psico"...)
Mas eu quero é mais de vc, mulher! =)
Eu volto com um comment sobre o que vc escreveu, de fato... Assim que eu o relê-lo...
"Assim que eu o relê-lo"??? Aí não dá...
Definitivamente...
Depressao nao é lucidez.
Olá! Te encontrei pelo Fejones... e já tô aqui dando minha opinião... Tem muita coisa p/ se fazer antes de morrer... mas o mais importante é aproveitar aquelas que a gente nem sabia que ia aparecer no nosso caminho... rs!
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