Me ajudem. Estou pedindo ajuda, estou reunindo forças entre vocês, estou me dispersando para me juntar, estou me dando para me concentrar num ponto para o qual olho o tempo todo sem que possa enxergá-lo, um ponto que é uma estrela que , todos sabem, pode estar ou não lá no momento em que olho, pode já ter se consumido, pode ser sombra espacial irrastreável, mas chega ainda a meus olhos por uma magia que sei exatamente qual é, mas não me interessa tanto quanto a realidade da sensação de contemplá-la neste único momento como existência ainda mais mágica. Mágica porque ao me concentrar em vê-la, a estrela pisca... Todas as estrelas piscam, eu sei, mas se concentre uma vez na vida numa única estrela, a estrela aparece e desaparece em menos de segundos quando olhá-se para ela. É uma propriedade das estrelas, toda estrela pisca.
Me ajudem , eu preciso falar antes que ela desapareça para sempre... Embora, obviamente seja eu que desaparecerei antes, muitos antes de que se desvendem quaisquer desses mistérios maiores, nada mais que apenas maiores que a própria existência humana." Mas é que a verdade nunca me fez sentido.A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo - para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia."
" (...) falar agora seria precipitar um sentido como quem depressa se imobiliza na segurança paralisadora de uma terceira perna. Ou estarei apenas adiando o começar a falar? Por que não digo nada e apenas ganho tempo? Por medo. É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do que sinto. É como se eu tivesse uma moeda e não soubesse em que país ela vale.
Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo?
E porque não tenho uma palavra a dizer."
(Clarice Lispector- Apaixão Segundo GH)