Ele não gosta de aniversários. Ao menos, não do seu próprio...
Diz que a data serve somente para encontrar os amigos, uma boa desculpa para "juntar tanto vagabundo (e as pessoas de bem tb)" que ele gosta tanto "de uma só vez".
De aniversário ele não gosta, mas gosta das pessoas! Gosta dos amigos (dos amigos dele e dos meus também), gosta da família (a que se tem e aquela que se escolhe, ou seja, os amigos de novo). Gosta do amigo Odie (ou Cadelo), um cachorro daqueles com cara de vira-lata inteligente e bobo pelo dono, sabem? O Cadelo também gosta dele. E ele gosta de coisas estranhas como a História do Brasil ou a da América Latina... Mas não gosta do Fantástico! Se bem que ele assiste... Da Argentina, nossa vizinha de continente, ele gosta até do time principal e torce também pro Boca, o “time de maloqueiro” dos nossos hermanos.
Ele diz que não gosta mais da seleção brasileira desde que eles pararam de jogar futebol de verdade. E de futebol, como muito menino, ele gosta e muito! E ele gosta do Corinthians... O que poderia gerar polêmica, já que o Corinthians anda tão mal das pernas, bem pior que a seleção... Mas é que o Corinthians é como a família que a gente escolhe. Não, acho que não é apenas esse o motivo... A verdade é que o Corinthians ainda tem um coração lá, batendo, sabem? E não sei como não enfarta, de tanto que bate (e apanha) esse coração. Não é apenas a marchinha de carnaval do seu Silvio (“Doutor, eu não me engano”), não é apenas lenda futebolística, canto de guerra da torcida ou mero clichê esportivo... Falem a verdade, já viram ultimamente alguém chorar (ou sofrer de dar dó) com algum empate da seleção que não lhe dê nem título, mas que apenas a salve (momentaneamente) de ter de passar por uma chata duma humilhaçãozinha? Aliás, alguém ainda sofre com uma derrota da seleção brasileira? Pois é, não sei. Mas sei que ele viu gente de barba na cara chorando que nem criança outro dia mesmo por causa do timão. E ele, menino, lá no meio da comoção geral. Como não chorar? Menino sem barba, sim, mas apenas porque já havia raspado pouco antes...
Ele, menino ainda, não gosta de aniversário. Talvez porque, comparando-se com meu irmão, João Victor (de 7 anos), por exemplo, ele não se sinta tão menino. Talvez porque, comparando-se comigo ou com muitos outros de seus amigos, ele se sinta um tanto crescido fora do tempo, um tanto deslocado. É que precisou cedo fazer coisa de gente grande. É que cuidou de casa, teve responsabilidades sérias... enquanto muitos de nós ainda esperávamos o futuro. É que tem um menino perdido dentro dele, como todos nós também temos, só que esse menino dentro dele está tão à mostra, tão perto, tão espontâneo... que nem sempre nós o compreendemos! Aí é que o pessoal do mundo adulto, gente que esquece tanto que todos somos apenas criança brincando de ser sérios, esse pessoal acaba olhando errado pra ele.
Para olhar pra ele de verdade, é preciso entendermos um pouco mais de nós mesmos. É preciso que a gente não tenha medo de ser sincero, nem de ver a sinceridade dos outros. É preciso ser delicado sem ser falso, é preciso ser direto sem ser grosseiro. É preciso olhar com os olhos dele, para então a gente conseguir perceber que o importante são as pessoas, não as coisas. Pra gente aprender que é bom ouvir, é bom conversar, é bom dar risada também. É bom respeitar, é bom compreender, é bom olhar para o outro como um outro, não como uma peça de nós mesmos que precisamos consertar.
Ele não gosta de aniversários. Ele “gosta é de mulher”, assim como o Roger do Ultraje ou a Ana Carolina. E ele também tem “amigo homem”, tem “amigo gay”. E sabe que amigo gay é homem também, respeito é bom e todo mundo gosta. Ele tem e teve muitas mulheres. As que passaram, amigas ou namoradas, ensinaram algo desse mundo estranho que é mulher (mas saibam, não tão estranho para ele). As mulheres que ficam, essas têm a sorte de continuar a ensinar e aprender com ele. Tem a amiga da balada, mas que tá lá nas horas sérias. Tem a amiga da faculdade que divide os mesmos gostos estranhos pela Argentina e aquele amor incondicional pelo Todo Poderoso Timão. Tem amiga no trabalho que até o acompanha ao estádio. Tem amiga que era sargento, superior, mas que sabia ser amiga. Tem um monte de amiga nova que são velhas amigas minhas, e elas são amigas dele (não amigas da namorada). E entre estas, tem até uma amiga distante que ele nem conhece! Tem amiga que é mulher de amigo dele. Aliás, muitas. E mulher de amigo dele não é homem, é mulher mesmo, por que mulher não é produto que se exibe, se desdenha e se quer comprar. Mulher é gente, gente diferente de homem, gente que só o sentimento de amizade sim é que não precisa diferenciar.
Minha amiga Letícia é da opinião que homem entende mulher a partir da mãe, das irmãs, da tia, da prima, da avó... Com as irmãs mais velhas loucas, cada uma a seu jeito, que ele teve desde sempre, com a avó séria e cheia daquela sabedoria grave de gente antiga que cuidou dele, com a prima que foi sua paixão platônica, com a mãe forte que tem, talvez a teoria faça algum sentido com ele. A mãe, mulher fora de seu tempo, mulher que não baixou a cabeça, mulher que sustentou sua casa, mulher de força estranha, mas frágil e carente também, mulher como todo ser no mundo que também precisa de carinho, mulher que também sofre com o Corinthians. É, talvez a teoria esteja certa... E eu agradeço a todas essas mulheres na vida dele, sou imensamente grata por fazerem dele esse homem de verdade. Esse homem que tenho a sorte de chamar de meu menino, que tenho a pretensão de tentar descrever (toda metida a ser Historiadora dos fatos da sua vida), que tocou minha mão numa noite mágica, 11 meses atrás, e me fez re-aprender a olhar pro mundo, que transformou a minha solidão insistente em uma história antiga de dores passadas, que eu amo “tão bem grande e tão muito muitão” como nunca pensei que existisse ou fosse possível amar alguém dessa forma, que me ama tanto e tão simples assim, me ama do jeito que eu sou, que me aceita e me inspira, me dá força e cuida de mim, me emancipa e me acolhe, que me enxerga, que vê todos os meus defeitos e que me ama mesmo assim, mesmo que eu seja apenas eu.
Esse menino que não gosta de aniversário (e que tanta gente gosta dele) chama-se Fabio Luis Pereira Queiroz de Azevedo, faz 26 anos hoje (dia 07/11) e é o meu menino... Ainda com muita história pra contar...