Noite
Fechei a porta para poder escrever. Não, nem a tranquei. É que a porta aberta me expunha ao de fora e eu quero o de dentro. Sei que está tarde, tarde da madrugada e que quase não há o de fora, pois a noite pertence aos reis. E somente aos reis é permitido entrar, eles que sabem a distância entre o sol e as estrelas, entre a íris e os nervos óticos, entre o “s” que se escreve e o “esse” que se lê, entre as gentes que o dia comanda e os bêbados e outros pungentes que a noite abriga. Reis pungentes: pequenas luzes cintilantes a piscar em frente a tv’s, postes públicos, mesas, copos de cerveja, revólveres, fatias de pão com manteiga e chocolate a esfriar, vídeo games, coxas, bundas, conspirações mundiais, papéis brancos... linhas paralelas se cruzando no meu caderno... hahnnnhh, hqueh hsonoh! Os reis que vigiam a noite não cabem neste quarto, mas eu precisava fechar a porta, empurra-la só um pouquinho com a ponta dos dedos do pé direito, e tentar ser/permanecer rei por alguns minutos.
Estrelas cadentes... Acho que vou-me embora pra Pasárgada a qualquer momento se não conseguir escrever/permanecer... Fechei a porta, mas é que é tarde e... os passarinhos cantam MPB sem que ninguém tenha lhes ensinado... enquanto passam os carros... no carro... que o Marco levou a gente até a praia porque ele é rei. E eu não era criança nem sereia, só menina querendo onda, sal e lua, mesmo feia, mesmo sem saber cantar. É que o mar era convite, a Mel era um sim pra água, meu coração um “quero ir lá tb, mas...” e o Gil, lá na orla, anjo, guarda, irmão. Letícia, anjo, guarda e cabide, mais velha. O Neto anfitrião, mas longe, muito longe dali... longe mesmo... longe é céu e mar casando lá no fundo escuro: um infinito beija o outro... e eu releio a praia. A praia de noite, da noite desta noite-reinado, (noite-palácio, castelo e barraco, noite-fábrica, noite-bordel, noitepungentenoite) todas as noites e aquela noite de praia que volta agora como o barulho que o ar engana a gente dentro de uma concha. Cada foto em claro-escuro, cada imagem congelada em movimento na minha cabeça, cada uma conta mil mentiras coloridas de luz e sombra, e isto até parece eu feliz. hahnnnhh... Agora sou amigo do rei...
Boa noite...
Segunda-feira, Junho 26, 2006
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