O conto abaixo é do Gil, meu amigo Gil Vieira, com toda sua narratividade fluida mas reflexiva, aquela sua prosa boa como café.... Café num dia de chuva...
De café e de reflexões
Insônia às vezes faz bem. Permite a reflexão. O sol está nascendo, já são quase seis e meia e o rapaz na janela tem lá os seus vinte e cinco. Mesmo na cidade cinzenta, vinte e cinco. Não mais que isso. Pensou em café e em como a noite tinha sido longa. Também pensou um pouco na vida e um pouco na morte – não há como separar estas duas coisas: vive-se e morre-se, sempre.
Os motivos para uma noite mal dormida podem ser tantos... Começou a elencá-los, enquanto observava o lento apagar do brilho de uma estrela. Deve ser Vênus ou Marte ou qualquer outra coisa. Se for mesmo Vênus ou Marte, então não é estrela. Não importa. Sim, importa. São planetas ou são estrelas e não há possibilidade de serem as duas coisas ao mesmo tempo. Com um pensamento assim, tão errante, jogam-se séculos de descobertas no vazio. Galileu foi covarde, mas sobreviveu ao inquisidor. Até ele, tão grandioso, mentiu, desmentiu-se.
Voltando aos motivos da noite mal dormida: preocupação? Com o quê, exatamente? Ele tem vinte e cinco. Tem trabalho, tem casa, tem nível. Só não tem carro ainda. Tem problemas sim, mas está aí uma coisa tão indissociável da vida quanto a morte. Todo mundo tem problemas. Ele mora tão longe... e não fala inglês, mas arranha um espanhol – e quem não arranha? Encontramos aqui coisas mais indissociáveis: falar português pressupõe “arranhar” um espanhol e vice-versa. Qualquer brasileiro pode se virar em Buenos Aires ou em Caracas, talvez encontre mais dificuldade em Madri – por causa da grande quantidade de sons interdentais. Terminologia.
O café, de idéia passou a algo concreto – não que as idéias não sejam concretas. Cheiro de manhã nascendo mesmo afogada em fumaça é sempre bom. Com café, tudo fica melhor, então. E isso era algo que sabia fazer e apreciar: café. Adorava desde criança. Gato brincando no quintal, mãe fazendo ruído lá pelas sete, avô assoviando uma daquelas músicas antigas... e um forte aroma, invadindo o quarto, entupindo as narinas.
Estrela quase que totalmente se apagando e o sol já com um pouco de sua circunferência à mostra. Xícara vazia. Garganta aquecida. Mas para que refletir tanto? Não bastam as vinte e três horas do resto do dia? Sim. Ele tem vinte e três e isso, definitivamente, não é um problema. Talvez seja culpa dele mesmo a falta de sono. Ninguém mandou ser tão misterioso e bonito. Mesmo canastrão como ator, mesmo dançando afetadamente Madonna, mesmo não curtindo Chico, mesmo não falando inglês, mesmo não planejando nada para o futuro – nem mesmo aquela viagem que todo mundo sonha em fazer um dia só com uma mochila nas costas – mesmo com tudo isso, misterioso e bonito, bem ao seu modo, e tão interessante. Valia a pena. Mora longe sim, mas quem não mora quando se vive com pouco dinheiro numa cidade tão desnecessariamente grande?
Agora eram as sensações que flutuavam. Tinha sido uma noite ótima aquela de uma semana atrás. Ele bem que tentou convencer que sabia atuar, mas escolheu uma cena de novela das oito para mostrar. Não colou. A galera se irritou, menos o de vinte e cinco da janela e do café. Ele já havia se encantado demais para considerá-lo um chato. No máximo, o que achou foi que ele era excêntrico, nada mais (e viva os eufemismos!). E quem é que não consegue dançar Madonna afetadamente? As sensações... Olhares tão desesperadamente se encontrando, se procurando. Havia sim problemas. A mãe e o pai jamais entenderiam e ele agora via motivos para ter perdido o sono. Mesmo longe de casa, mesmo sem cobrança da cidade afogada em fumaça.
A semana toda fora maravilhosa e esta manhã de segunda parecia despertá-lo de algo como um sonho. Ele estava ali na janela, e o sol lá fora quase no alto, imponente, sem ter dado nenhuma chance àquela estrela – realmente, se fosse um planeta não teria como o sol “dar chance”; planetas não têm luz própria. E ele tinha. Mesmo morando longe, não falando inglês e dançando daquele jeito esquisito a música nova da diva pop. Ele era o máximo e agora já parecia valer a pena ter perdido o sono refletindo enquanto se aprecia o nascer do sol tomando café na janela na manhã de mais uma segunda-feira da cidade que vive mergulhada em fumaça. Sentiu a mão dele sobre o seu ombro e pensou em como era bom acordar com a pessoa certa. Olhou aquele rosto tão lindo que sorria com olhos tão cheios de sono, e lembrou de Galileu e de toda aquela história de planetas, estrelas e sol. Talvez valha a pena não mentir mais, jamais se desmentir.
Gil Vieira
10/04/2006
Segunda-feira, Julho 10, 2006
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